Mercado de Reposição

Veículos elétricos exigem nova cadeia de suprimentos

*Roberto Pansonato

Trabalhei no setor automotivo por quase 30 anos. Nesse período, acompanhei a consolidação do etanol como combustível alternativo e a popularização de itens que antes eram exclusivos de veículos de luxo, como vidros elétricos, ar-condicionado e direção elétrica. Embora essas inovações tenham promovido avanços significativos, a verdadeira ruptura tecnológica acontece agora: a rápida expansão dos veículos elétricos. Diante desse cenário, surge uma questão estratégica: as cadeias de suprimentos estão preparadas para sustentar essa transformação que parece irreversível?

Apesar de compartilharem diversos componentes, como pneus, amortecedores, sistemas de direção e suspensão, veículos elétricos e veículos a combustão diferem justamente em seu elemento mais importante: o sistema de propulsão. Segundo Gustavo Pauro, a substituição dos motores a combustão por motores elétricos não representa apenas uma mudança tecnológica, mas uma profunda reconfiguração do ecossistema produtivo automotivo, impactando fornecedores, trabalhadores, regiões industriais e a própria distribuição de riqueza ao longo da cadeia.

A cadeia de suprimentos dos motores a combustão encontra-se madura e consolidada. Ela envolve componentes como câmbio, sistemas de exaustão, injeção de combustível, alternadores e motores de partida. No Brasil, fornecedores Tier 1, Tier 2 e Tier 3 desenvolveram ao longo de décadas uma sofisticada estrutura técnica e logística para fornecer peças forjadas, fundidas e usinadas com elevados níveis de precisão. Processos de transporte, armazenagem, embalagem e abastecimento foram continuamente aprimorados para atender às exigências das montadoras.

Agora, porém, a lógica da cadeia começa a mudar. Gradualmente, componentes tradicionais dão lugar a motores elétricos, compostos por rotor, estator, eixo, rolamentos e inversores de potência, além das baterias, principal elemento tecnológico do veículo elétrico. Nesse segmento, a China ocupa posição de liderança mundial na produção de células de íons de lítio.

A transformação também alcança a origem das matérias-primas. O protagonismo antes concentrado na mineração de ferro e aço passa a incorporar minerais estratégicos, como lítio, cobalto, níquel e grafite. Como consequência, novas rotas logísticas, exigências de armazenagem, sistemas de transporte e soluções de embalagem precisam ser desenvolvidos para atender às características desses componentes e garantir segurança, rastreabilidade e eficiência operacional.

Para o Brasil, o desafio vai muito além de produzir ou vender automóveis elétricos. Será necessário desenvolver fornecedores, estimular inovação, ampliar a produção local de componentes e criar condições para que parte desse novo ecossistema industrial se estabeleça no país. Caso contrário, corremos o risco de repetir um modelo em que apenas montamos produtos desenvolvidos e fabricados em outros mercados, capturando uma parcela cada vez menor do valor gerado pela indústria.

A eletrificação da mobilidade é um caminho sem volta. A questão não é se ela acontecerá, mas qual será a posição do Brasil nessa nova configuração mundial. Quem compreender que a competitividade do futuro será construída nas cadeias de suprimentos — e não apenas nas linhas de montagem — estará mais preparado para liderar essa transformação.

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